Snoopy, o herói do Vietnãm
30 março 2026
Nos anos 50, lia-se jornal. Por 50 anos ininterruptos, uma tirinha foi publicada nos jornais estadunidenses: Peanuts - ou A Turma do Charlie Brown. Por quase 50 anos, os EUA financiaram uma guerra fria; indireta; declarada; sonsa; causadora de atrocidades no Vietnã e traumática para os filhos da pátria que foram enviados. Já ouvi por aí que as forças militares são tão rígidas com padrões estéticos (cabelo curto, bem cortado, barba feita, roupas alinhadas, coturno engraxado) para que o combatente tenha alguma manutenção de humanidade. Não sei se acredito nisso, mas me demoro nessa história de "manutenção da humanidade".
A guerra do Vietnã foi super impopular. Quem ia, não queria ir; quem ficava, protestava pelo fim. O autor de Peanuts era um veterano da segunda guerra e só podia ter empatia pelo que os jovens estavam enfrentando nos anos 60/70. Esse sentimento virou um personagem, o Ás da Aviação - O Snoopy paramentado de aviador, imaginando que sua casinha é um avião e engajando em situações típicas da guerra (combates aéreos, trincheiras, cidades abandonadas, visitas ao bar). Situações típicas de quem esperava o jornal de domingo, momento em que a leitura da página da tirinha era a mais aguardada pelos soldados estadunidenses no Vietnãm. A tirinha sempre trazia assuntos relevantes e atuais (religião, feminismo, racismo, crise ambiental, conflitos capitalistas...); o personagem principal verbalizava o seu cansaço e desacordo sobre a guerra; os combatentes sabiam que, em casa, sua família também estava lendo aquela mesma tirinha; e o cabra ainda era engraçadinho! Ritual de manutenção da humanidade.
Descobri isso tudo certo dia, quando a guerra na Ucrânia se iniciava, esbarrei na internet com um comentário sobre como os ratos dos campos de guerra são gordos. Comem cadáveres e não falta comida. Não me lembro de todos os passos, mas, de clique em clique, encontrei uma foto de um isqueiro decorado com uma imagem do Snoopy. Muitos. Itens de colecionadores da Guerra Fria. Encontrei fotos de soldados juvenis hasteando toalhas com estampa do Snoopy. Encontrei patches de farda, desenhos pintados em tanque, caminhão, avião, encontrei história de gente que se agarrava ao mascote das mais variadas formas. Li um livro sobre isso. Eu, que já amava A Turma do Charlie Brown pelas inseguranças compreensíveis e cativantes do personagem principal, renovei o amor percebendo o papel histórico-social de um personagem tão encantador que se tornou ícone para soldados comunicarem seus próprios sentimentos sobre a guerra (e apesar da guerra).
Naquela época (poucos anos atrás) não se vendia, consumia e se vestia o Snoopy como agora. Agora, que os ares de guerra só pioram, o Snoopy parece (re)surgir como indicador e herói possível.
Como dizem: a história é cíclica.